07/10/13

O que não foi dele, o que não foi dela


Deslizou seus pés na areia fria, podia sentir a mistura das substâncias. O sólido da areia se encontrava com o líquido salgado do mar. Ele tinha ótimas lembranças e tristes pensamentos.
Encontraram-se ali, misturados entre as substâncias dos corpos e dos sentimentos. Ambos quentes, diferentes destinos.
Olhou ao seu lado e desfilava um casal e uma criança. Ela ficava segurando as mãos, entre eles, contente, e fitando o cachorrinho que estava sendo puxado pela mãe. Uma cena que era costumeira para Juliard, mas que doía sempre que a contemplava.
Sentou-se na areia, embora quente, não se importava com a temperatura. Queria mesmo era inclinar a face e deixar que as lágrimas tocassem os grãos, sem que notassem seu rosto molhado. Só queria um motivo. Juliard, todavia, foi um marido bom, buscou ser. Embora eles não tivessem casado na igreja, como sempre sonharam. Porém, devido às condições financeiras, não foi possível. Mesmo assim, havia uma união que Juliard considerava como eterna. E não foi. Ele só precisava entender a razão da separação e não conseguia, era uma incógnita. Após uma briga ela saiu de casa para levar Lili ao colégio e nunca mais voltaram.
Teve a ousadia de contemplar o casal, mais uma vez. A garotinha estava sentada no colo de sua mãe, enquanto mexia na areia. A mãe a segurou pela cintura e sentou sua filha na toalha de praia.
- Vá! Brinque, querida. Quero um castelo bem bonito.
Juliard não aguentava ouvir aquilo. As declarações de amor, as demonstrações de afeto eram demais. Ele não esquecia Caroline, por mais que quisesse. Tinha algo nela que o prendia, que o fazia querer e pensar em sua presença a todo instante.
A criança ergueu a cabeça para mostrar à mãe o tamanho do castelo que construíra. Ao erguer, contemplou aquele homem chorando, em silêncio.
- Olhe, mamãe. Ele está chorando – ingênua, apontou a criança para Juliard.
Constrangida, a mulher pediu desculpas pela atitude da filha. Juliard apenas meneou a cabeça e sumiu o mais rápido que pôde.

Caroline ergueu a cabeça e olhou os ponteiros se movendo. Eram 10h28 ainda e parecia que ela tinha dormido uma eternidade. Vivia trancada, ora dormindo, ora comendo ou apenas olhando para o nada. Não podia assistir televisão, não tinha acesso à internet e seu celular fora tomado e ela nunca mais conseguiu ir numa loja para comprar outro.
Caroline chorava baixinho, não tinha notícias de Juliard, mal podia acarinhar sua filha. Ele a mantinha presa, mas por qual objetivo? Ela só queria entender porque aquele homem fazia-lhe tanto mal.
No fundo, mesmo não querendo admitir, Caroline sabia. Ele era um psicopata. Começaram a namorar um ano antes de conhecer Juliard. Ela desconhecia seu jeito e ficaram juntos por longos oito meses, mas era hora de terminar. Ela não aguentava mais viver com ele e então ele não aceitou o fim. Procurava, seguia e, numa emboscada, trouxe-a. Roubou-a para si.
Ele não queria mais nada além daquela presença. Prendia Caroline e sua filha. Ao chegar em casa, ele forçava Caroline a fazer suas vontades, era submissa, pois ele ameaçava matar Lili.
Caroline, temendo, nada podia fazer. Não conseguia se soltar, sequer pedir ajuda. Caroline só queria Juliard, ter seus braços protegendo os seus, chorar em seu colo e tê-lo como abrigo.

12/06/13

Amar, amor



Desde sua chegada, amor,
Amar tornou-se riqueza.
Seu sentimento é a minha destreza.


Amar, amor, me amar...

Ouvir tuas palavras, amor,
Amar tornou-se ventura.
Sua voz é a minha ternura.


Amar, amor, te amar...

Desde o nosso encontro, amor,
Amar tornou-se a nossa fortuna.
Sonhar, viver, amar.

Amar, amor, nos amar...

27/05/13

Enamorados réus

Olhares flamejantes
Refletem abraços que extirpam dores,
Beijos que acolhem a felicidade.

Olhares flamejantes
Notam a presença dos amores,
Juntos, a bailar a melodia dos onze.

Olhares flamejantes
Observam, ambos, álacres,
Sorrisos que vieram dos céus.

Olhares flamejantes
Sentem, agoniantes,
A despedida de volta para a cidade dos véus.

Olhares flamejantes
Voltam a apreciar, relaxantes,
O encontro dos enamorados réus.

20/02/13

Você que tem um pai...



Como é acordar com os olhos remelentos, ainda disperso e sonolento, ao ouvir a voz atônita do seu pai a chamá-lo? Como é olhar enraivecido, para ele, por ter sido acordado no meio de um daqueles sonhos em que se está dando uma volta em Paris, com uma Ferrari vermelha e uma garota linda e desejada ao seu lado?
Então você esfrega o dorso das mãos em sua face e se depara com uma cara assombrosa e desesperadora te acordando para ir ao colégio. Como é ter que sentar em frente ao seu pai, enquanto toma café, e ter que ouvi-lo brigar, por mais uma vez, não ter escutado o despertador tocar? Como se sente ao ter que ouvir outro sermão logo pela manhã?
Mochila arrumada, uniforme vestido. Agora você está entrando no carro para ser levado, por ele, ao colégio. Afinal, você estuda perto de onde ele trabalha, então, tem que ir de carona todos os dias. Como é chegar ao colégio com seu pai? Qual a sensação de olhar para seus colegas de turma, eles rindo, enquanto você desce do veículo e a atenção é toda voltada para você?
Ao sair, ele te beija na testa, dá um tapinha nas costas e, por fim, se vai. Você fica corado e, envergonhado, abaixa a cabeça e resolve ir direto para a sala de aula. Como é ser motivo de chacota por seu pai sempre levá-lo?
No final da aula a mesma coisa, ele te busca, já que o horário de almoço dele é bem no horário da sua saída. A rotina se repete. A sua novela parece que não é igual aquelas das 8 que só duram, em média, 4 meses. Diferente delas, a sua parece não ter fim. Vergonha atrás de vergonha, constrangimento empilhado, você se sente cansado disso. Como é ter um pai assim?
Ao chegar em casa, as lições para serem feitas e entregues no dia seguinte, são concluídas forçosamente. Por quê? Aquele pai briga, não deixa, pega no pé. Como se sente ao ter um pai dessa maneira?
Você quer sair à noite com os amigos, doze anos de idade: época de fazer as melhores coisas. Não pode, ele não deixa. Amigos te chamam de menina enrustida. Inimigos zombam da sua cara. Então, você, envergonhado, fica em casa e segue a rotina que ele tanto quer, mas com desgosto e desprazer. O que mais queria era ter um pai de verdade, daquele que te larga, te deixa sair, fazer e acontecer. Queria ter um pai que te deixasse faltar na escola, dormir até a hora que quisesse, sair sem hora para voltar e não se preocupasse com amanhã. Como é viver com um pai diferente do que você deseja?
Os anos se passam, você cresce e não tem mais aquele pai. Você queria tê-lo de volta, acordar com aqueles berros, ouvir suas brigas e, até mesmo, tentado ser um filho melhor. Agora é tarde demais. Tarde para valorizar uma atitude, tarde para reconhecer um erro, tarde para querê-lo de volta. Agora você fecha os olhos e deseja sua presença. Então, se pergunta: “Como é não ter um pai?” Difícil, muito duro, meu caro. Uns dizem que ter algo e perder é a pior das dores existentes, mas eu vos digo: ter tido é a experimentação de ter usufruído de algo. Eu nunca tive um pai, nem bom, nem ruim; nunca senti um grito amargo ou doce; nunca fui abraçada delicadamente ou com brutalidade. Não sei qual a sensação de ter um pai preocupado com meu bem estar. Mas, já que sabes, meu caro leitor, como é ter um pai? Porque eu nunca sentirei na pele como é isso, esse sentimento eu jamais saberei.

14/01/13

Ardente devaneio


O céu flamejava o esplendoroso pôr-do-sol. Na grama, faiscante, o reflexo se interpunha. Os peixes bailavam em consonância com o som simétrico do vento. Os corpos contemplavam tamanho espetáculo, mas recusaram-se ficar, apenas, na plateia. Entraram em cena: voluptuosos beijos foram trocados, longos abraços oferecidos e entregues. Os olhares, doces e intensos, eram dilacerados por ininterruptos toques labiais. A pele roçava noutra, as carnes gritavam, desejosas. Ambos os corpos se queriam. Ambas as peles se entregaram.

Não mais flamejante, o céu tornara-se escuro. Desejaram-se, amaram-se e realizaram peripécias. Mas o gosto da saudade invadiu os rostos, gotejando lágrimas infindáveis. Nada no céu, além de uma estrela tremeluzente. Nada naqueles corações, além de um amor ardente, uma vontade gritante de não partir. A noite chegara, a despedida também. Deixaram-se. Cruzaram outros mundos, outros percursos: outra vida.

Abriu os olhos e viu que já era dia. Mais um daqueles sonhos loucos e desejosos. Tomou seu banho e foi trabalhar. Foi sonhando no verdadeiro encontro, quando ele, realmente, aconteceria e não apenas mais uma ilusão, daqueles filmes em que a linda princesa espera e encontra o príncipe num cavalo branco.